Hidrofobia: quando o medo da água se torna doença
O medo da água é mais comum do que se imagina, mas pode ser superado com a ajuda de profissionais especializados
29/01/2007
Por Mauricio Erreria de Goes
Desde os tempos primórdios o homem cultiva um certo temor em relação à água. O medo é explicado pelo fato de ser ele um animal terrestre e o meio líquido um ambiente totalmente diferente do seu hábitat. Mas esse medo pode ser interpretado de diferentes formas. Para uns, o sentimento tem uma conotação de prudência ou salvaguarda, enquanto para outros é encarado como um desafio a ser vencido.
Porém, há pessoas nas quais esse sentimento é exacerbado, tornando-se um obstáculo ao convívio com a água. Em alguns casos, chega a ser descontrolado, o que então caracteriza uma grave fobia, no caso da água, uma hidrofobia.
“A fobia é o medo patológico. Quando em contato com o objeto fóbico, o indivíduo entra em pânico e tem uma intensa crise de ansiedade, com manifestações físicas como taquicardia, sudorese, vertigem, respiração acelerada. Com isso, a tendência é a pessoa se esquivar desse objeto”, comenta o psiquiatra e psicoterapeuta Geraldo Possendoro, especialista em ansiedade e professor do curso de especialização em psicoterapia cognitivo-comportamental da Universidade Federal de São Paulo - Unifesp.
Segundo ele, o medo é um sentimento inerente ao ser humano, que nasce preparado para afastar-se de situações que não condizem com sua natureza. “Trata-se da teoria do preparo, na qual o organismo seria filogeneticamente – pela evolução natural – preparado para afastar-se de estímulos perigosos”, afirma.
No início da vida, ainda na fase fetal, a familiaridade do ser humano com o meio líquido é total em virtude do intenso contato com a água durante a gestação. Após o nascimento, essa relação se desfaz e, com o passar do tempo, a submersão na água passa a ser algo estranho ao organismo.
“O homem não domina o meio aquático, por isso evita naturalmente a água, mesmo não sendo um caso de fobia”, argumenta o professor da academia Albatroz -SP, Lula Feijó, que desde 1989 desenvolve um programa com aulas especiais de natação chamado Nadar Sem Medo, voltado a pessoas que têm medo de água, fóbicas ou não.
Graduado pela Faculdade de Educação Física de Santo André – Fefisa/SP e watsuterapeuta nível III, além de ex-nadador e campeão brasileiro pelo Sport Club Corinthians Paulista, Feijó salienta que o medo é saudável quando dosado, cumprindo a função de um alerta emocional que tem por objetivo preservar o indivíduo. Já a fobia ele define como um medo irracional, a ponto de a pessoa nem querer superá-lo. “Fobia é um medo desproporcional à ameaça real. O medo de água é saudável, já o medo de fotos de água é fobia”, compara.
RAÍZES DA FOBIA
Possendoro cita três teorias como as principais razões pelas quais uma pessoa pode desenvolver fobia em relação à água ou outros estímulos. A primeira é a teoria do preparo, na qual o ser humano nasce com um senso natural de perigo – no caso o medo –, desperto em determinadas situações. Esse senso de perigo seria hiperativo em algumas pessoas, o que caracterizaria um medo excessivo, fora de controle no caso da fobia, podendo ocorrer frente a um ou mais estímulos. A segunda, denominada teoria do aprendizado, diz respeito a pais ansiosos, que por excesso de zelo transmitiriam insegurança aos filhos. Estes, por conseqüência, poderiam desenvolver um medo exacerbado ou até mesmo alguma fobia. “Essas crianças tornam-se indivíduos frágeis, extremamente inseguros e propensos a fobias”, relata o psiquiatra.
Mas no caso do medo em relação à água, a teoria com maior incidência é a do trauma. São comuns os casos de pessoas que foram expostas a situações de perigo no meio aquático, muitas delas com risco de morte, o que acaba gerando um trauma. Por conseqüência, o indivíduo desenvolve um medo excessivo ou até mesmo uma fobia.
Pessoas que passaram por esse tipo de situação acabam evitando banhar-se em piscinas, no mar, mas há quem evite até mesmo o simples contato do rosto com a água. “Existe gente que não molha o rosto no chuveiro porque sente falta de ar, sente-se ansiosa”, comenta Feijó, dizendo que já lidou com diferentes casos de fobia em seu programa Nadar Sem Medo.
Para ele, os graus de medo ou fobia são variados e individuais, de acordo com o histórico da pessoa, de como ela enfrenta o problema e sua disposição de superá-lo. Porém, existem pessoas que sofreram traumas e nem mesmo se lembram do episódio. “Eu atendi o caso de uma senhora de 50 anos que estava aprendendo a nadar normalmente em uma piscina com mais de um 1 metro de profundidade e quando a coloquei em uma rasa de 40 cm ela entrou em pânico. Depois ela acabou se lembrando de que quase se afogou na banheira quando criança”, conta o professor. “Às vezes, o simples fato de o bebê escorregar das mãos da mãe e afundar na banheira é suficiente para despertar fobia”, acrescenta.
O próprio Geraldo Possendoro foi vítima de um trauma envolvendo água na infância, do qual também não se lembrava. “Meu pai conta que por volta dos dois anos e meio me soltei da mão de minha mãe e me joguei na piscina. Como não sabia nadar, afundei e engoli muita água. Se já havia em mim um preparo genético para evitar a água, o fato confirmou o medo e as estruturas cerebrais comprovaram que eu poderia morrer ao entrar na água”, relata o psiquiatra.
O fato, conta o professor da Unifesp, causou uma fobia que lhe impedia de submergir a cabeça na água. Mas o medo não o privava de entrar na piscina, tanto que aos oito anos foi matriculado na academia para aulas de natação, porém ele sempre limitava a água à altura do peito. “Morria de vontade de dar um mergulho, mas não dava”, lembra.
TRATANDO O MEDO
De acordo com Possendoro, o cérebro humano é reprogramável, aberto a experiências externas, o que torna possível a superação da fobia. No entanto, essa reprogramação deve ser feita com o consentimento da pessoa, de forma segura e tranqüila, para que não seja uma – ou mais uma – experiência traumática. Um dos métodos mais utilizados no tratamento de medos e fobias é o processo de dessensibilização sistemática, criado na década de 1950 pelo psiquiatra sul-africano Joseph Wolpe.
Basicamente, o processo prevê a exposição da pessoa ao objeto desencadeante da fobia de forma lenta e gradual. “Em um primeiro momento, o indivíduo evita, mas, depois, a prática torna-se prazerosa e ele passa a controlar a situação”, sustenta Possendoro, que em três meses conseguiu vencer seu medo por meio do método.
Em muitos casos, diz o psicoterapeuta, a fobia, quando branda, pode ser curada espontaneamente por meio da dessensibilização. Entretanto, ele ressalta que, em casos mais graves, o tratamento adequado deve ser feito por um psicólogo, ou até mesmo um psiquiatra, e complementado pelo trabalho desenvolvido na piscina por um instrutor de natação especializado. “Em hipótese alguma se deve tentar dessensibilizar uma pessoa jogando-a na água à força”, alerta, explicando tratar-se de um método totalmente primitivo e perigoso, pois só fortalecerá a fobia, além de colocar a vida da pessoa em risco. “Essa atitude só demonstra a falta de compreensão das pessoas do que é a fobia”, complementa.
A adaptação da pessoa fóbica na água deve acontecer sem nenhuma imposição, da forma mais natural possível, pois só assim há condições do medo ou fobia ser superado. “No começo, a pessoa só tomará um banho de piscina. Às vezes fica só com os pés na água, sem nenhuma imposição”, conta o professor Lula Feijó, explicando que esse trabalho é feito normalmente em piscina rasa e água aquecida para tornar o meio líquido o mais confortável e acolhedor possível. “A água aquecida relaxa e deixa a pessoa mais calma”, argumenta.
Para ele, a maior dificuldade na superação do medo em relação à água está na submersão da cabeça, que é o centro nervoso do corpo. O primeiro passo, após ambientação inicial, é aprender a controlar a respiração e a lidar com pressão para não permitir a entrada da água nos orifícios da cabeça. O segundo o passo é aprender a boiar. “Controle da respiração e flutuação são a essência da natação. Depois vem a propulsão – deslocamento. Aí a pessoa já parte para a aula de natação propriamente dita”, afirma.
Mas para de fato vencer o medo, a pessoa precisa tornar-se auto-suficiente e aprender a sobreviver na água quando não houver possibilidade de ficar em pé ou segurar-se em algum lugar. Essa auto-suficiência, segundo Feijó, pode ser conquistada dominando três aspectos. O primeiro é a flutuação, de frente e de costas. “A flutuação de costas é a única forma de descanso na água, pois a pessoa consegue boiar e manter o nariz e a boca fora da água”, ressalta.
O nado de sustentação na vertical é o segundo e consiste no palmeado lateral com as mãos, aliado ao movimento de pernas estendidas, mantendo a cabeça fora da água. E o terceiro aspecto é o popular nado cachorrinho, que possibilita um deslocamento seguro, sem a necessidade de afundar a cabeça na água. No entanto, Feijó explica que o método não tem por objetivo fazer com que o medo desapareça por completo. “Apenas é baixado o nível de prudência, pois o medo é um balizador das ações da pessoa”, justifica.
MULHERES X FOBIA
Pesquisas apontam que as mulheres têm maior propensão a desenvolver fobias que os homens. No caso do medo de água, a faixa etária com maior incidência está entre os 40 e 60 anos e grande parte dessas mulheres apresenta algum histórico traumático, de acordo com Feijó. “Quando a pessoa deixa para aprender a nadar na fase adulta é porque está evitando por algum motivo”, comenta. Outro motivo ressaltado pelo professor é que há alguns anos o número de escolas de natação era pequeno em relação ao atual, por isso o esporte era pouco acessível. “De algumas gerações para cá, a prática do esporte se popularizou e ficou mais acessível. Por isso o número de pessoas com medo de água está diminuindo. Mas sempre haverá casos de trauma”.
A aposentada Nadir Cintra Brancalion, de 81 anos, confirma as estatísticas sobre o medo e as mulheres. Ela ingressou recentemente no curso Vencendo o Medo da Água promovido pelo Sesc São Paulo, no qual mulheres na faixa etária a partir dos 40 anos são maioria entre os participantes que buscam superar o temor. Dona Nadir quer vencer o medo adquirido na adolescência, fruto de um trauma. Sócia do Clube de Regatas Tietê, aos 16 anos, ela participava de uma aula de natação, na época realizada no próprio rio Tietê, quando passou por apuros. “Naquele tempo, a gente aprendia a nadar com o instrutor puxando uma corda presa em nossa cintura. Só que na hora que ele puxou eu não estava pronta, porque a corda ainda não estava presa. Então eu afundei e acabei pegando medo”, relata a aposentada, que freqüenta a unidade Pompéia do Sesc São Paulo.
Não um trauma, mas um medo difícil de superar foi o que levou ao mesmo curso a dona de casa Márcia Vidal, de 42 anos. “Eu queria aprender a nadar, mas sempre tive um pouquinho de medo de acontecer alguma coisa na água e eu não conseguir me virar”, conta Márcia, que não entrava nem em piscinas rasas. Ela diz que anos atrás tentou vencer o medo com aulas de natação comuns, mas acabou desistindo. “Não havia o preparo que nós temos aqui, essa adaptação nos mínimos detalhes”, comenta.
Segundo Fabiano Mastrodi, coordenador de cursos permanentes do Sesc Pompéia, o curso Vencendo o Medo da Água existe há mais de cinco anos e tem duração média de seis meses, variando de acordo com o desempenho do aluno. “A procura pelo curso é grande, principalmente entre as mulheres. O objetivo não é ensinar a pessoa a nadar, mas adaptá-la ao meio aquático para que depois ela possa desfrutar benefícios de atividades aquáticas como a natação ou a hidroginástica”, afirma.
Fonte: Mundo Aqua
Água - Do medo à confiança
Água, terra, fogo e ar. São Francisco de Assis louvando a Deus pelos quatro elementos disse: "Louvado, sejais, Senhor, pela irmã água, que é útil, humilde, preciosa e casta". Está sacramentada a pureza da água, que a tudo la e limpa, e é manifestada no batismo cristão, no banho purificador dos pecados no Rio Gange (ritual hindu), e nas flores lançadas ao mar para Iemanjá.
Temor e veneração são os elementos primários de todos os sacramentos. A água e a emoção medo originalmente limpas, fluídas e cristalinas, vivificam nosso universo físico e psíquico. Estão presentes nos signos, simbolos e rituais das nossas mais profundas manifestações de reverência à vida.
A beleza dos rios, lagos, nuvens, gelo e mares, é, também, a oculta beleza do milagre biológico da água e da magia das emoções que ocorrem dentro dos corpos vivos.
Há três bilhões e quinhentos milhões de anos atrás, nossa mais elementar forma de vida saia da água para uma incrível tragetória evolutiva, registrada nas palavras de um dos mais antigos livros sagrados, o Alcorão, que diz: "Criamos todos os seres vivos a partir da água".
A água como todo sagrado é paradoxalmente temida e venerada. Temor e veneração em equilíbrio pode nos levar ao prazer e à saúde. Porém, traumas, heranças e transferências podem desencadear a relação angustiante que certas pessoas têm com este elemento-mãe. O que fazer para ajuda-las?
A água, infelizmente como quase tudo, vem sendo vítima da mente utilitária da maioria dos seres humanos. Poluída, ela luta para manter sua pureza. Assim ocorre também com a relação a educação, que deveria ser uma atividade de amor e está poluída na louca corrida comercial das escolas. Escolas e professores que resumem o educar em meia dúzia de gestos estereotipados, a que chamam suntuosamente de sequência pedagógica. Este ensino mecanicista, de pouco serve a quem desarmoniza suas emoções na água e perde esta fonte de prazer, integração e felicidade.
Parto do princípio que só o amor educa, só humildade nos torna permeáveis e suscetíveis ao aprendizado. Só o prazer, o sentir e a compreensão podem ensinar. Nadar é só uma parte da natação.
A técnica é só um esboço precário de uma relação. Só o amor pela água pode revelar a intimidade que um gesto tem que ter para se apoiar em sua dança incessante de fluxos e refluxos.
Antes da técnica pedagógica devemos, fora da piscina, estimular essas pessoas a uma introspecção, a um auto-conhecimento. Permitindo que falem de suas experiências com a água, convidando-as a relaxar ao som de músicas suaves, podemos também sensibilizá-las para que conscientizem-se de seu corpo.
Ainda antes da técnica pedagógica, agora na piscina, devemos acalmá-las não propondo exercícios e sim permitindo que redescubram a água como sua velha amiga. A música também é utilizada para estimular o resgate do prazer de integrar-se, entregando-se a água. Podemos aproveitar a natureza psico-regressiva deste vital elemento para trabalhar com o lúdico, pois brincar e rir, solta o diafragma, relaxa e amplia a respiração, aí então torna-se possível recuperar a auto-confiança.
Poderia escrever muito mais sobre as minhas vivências com os grupos com os quais trabalhei porém, aqui só quero deixar um perfil da minha abordagem holística no trato com as pessoas que tem medo da água. Espero ter dado uma pequena contribuição para ampliar as perspectivas das relações no aprendizado da natação.
Prof. Lula Feijó
Artigo publicado no Jornal da Associação das Escolas de Natação do Estado de São Paulo - 1991.
Medo da água Solução na busca interior
Fogo, terra, água e ar. São esses os quatro elementos que mantêm a vida da forma como a conhecemos. Entre eles o que exerce maior fascínio e atração, representando muito de nós mesmo é a água. Biologicamente isso fica muito claro: a necessidade de água para saciar a sede, o fato de 90% do nosso corpo ser água e também a maneira como viemos ao mundo, saindo de uma cálida bolsa, cheia de líquido amniótico que nos envolvia.
Nosso vínculo com a água é muito profundo. É natural que gostemos de estar no meio líquido, de brincar nele, sentir sua textura, o prazer que ele proporciona, seja como um esporte, como benefício à saúde ou mero instrumento lúdico.
A água é um elemento extremamente importante para nosso equilíbrio emocional e psíquico; é uma ampliação do mundo com o qual estamos acostumados.
Sua natureza envolve nosso corpo, altera nosso ritmo respiratório e também a visão, a audição e o tato; o corpo adquire outro peso e a sua movimentação, novas formas. É uma constante redescoberta e uma viagem dentro de nós mesmos.
Toda essa emoção que a água desencadeia provoca diferentes reações nas pessoas; muitas vezes como poderia ser descrito como uma sensação de bem-estar para a maioria, pode ser um extremo desconforto e até fator desencadeante do medo para outros.
Medo é um fenômeno interessante e necessário
O medo é uma emoção. O medo original é auto-preservador, promovendo as reações necessárias para as mais diferentes situações, como a dilatação da pupila, a concentração do sangue nos órgão principais, promovendo a tensão ideal dos músculos para a ação.
O medo não original, ou seja, aquele que é desencadeado mesmo quando a pessoa não se encontra em uma situação de perigo real, ocorre quando a emoção se desarmoniza, não havendo uma ação nem reação adequadas, provocando uma eventual paralisação ou pânico. "O medo original, em relação à água, ocorre quando há o desconhecimento técnico, a pessoa não domina seus movimentos para nadar ou estar em águas profundas".
"Já o medo não original, que eu denomino 'medo do medo', é simbólico. É como não só ter medo do tigre como também da foto do tigre, uma representação" diz o professor Lula Feijó, que desenvolve workshops especiais parap essoas com medo da água.
"Todos somos seduzidos pela água, mesmo aqueles que tem medo no seus mais variados graus; isso quer dizer que não se pode viver bem sem ter uma boa relação com a água.
A água é um elemento muito importante sob o aspecto psicológico porque a pessoa tira seus pés do chão e tem pontos de apoio completamente variáveis, ela convida a pessoa a sentir, a transferir emoções, principalmente a nível afetivo, porque tem uma relação muito forte com a respiração, o retrato fiel de nosso estado emocional. A natação cobra uma respiração mais eficiente, profunda e ritmada.".
As causas do medo
O medo da água, quando classificado como "não-original" tem como suas principais causas os traumas e transferências emocionais, todos de origem bastante variada. O que, segundo Lula Feijó, poderia acontecer antes mesmo de a criança nascer, "como um princípio de afogamento, um banho de água fria que a mãe tome", caracterizado como transferência intra-uterina.
A transferência emocional também pode ocorrer após o nascimento, quando a mãe não sabe nadar ou é insegura, passando seu medo para a criança com palavras como: "Cuidado com a água"; "Olha que você vai se afogar!". A criança se sente ameaçada ou incapaz e a água é classificada como algo ameaçador.
Os traumas mais tradicionais ou facilmente identificáveis são casos de afogamento (presenciar ou ser vítima de um acidente do gênero), além de tentativas falhas de aprender a nadas.
Este último caso na maioria das vezes é decorrente de experiências traumáticas com instrutores pouco habilidosos, que forçam o aluno a acompanhar o ritmo da turma ou o esquecem em um canto, dando atenção à maioria que está evoluindo em conjunto. Essas situações se tornam muito embaraçosas para a pessoas em questão, reforçando sua insegurança.
Terapêutica do medo
A brincadeira é o principal estímulo para a criança (e também o adulto) se soltar na água e readquirir segurança. Não só porque a alegria é um fator muito importante na vida e que deve estar associado aos momentos em que se está na água, mas também pelo fato do riso, das brincadeiras e gritos descontraírem todo o corpo e soltarem o diafragma, essencial para a respiração correta exigida no ato de nadar.
Alguns perdem o medo da água ou preferem aprender a nadar sozinhos, em um local tranqüilo em que não sejam observados, outros procuram ajuda profissional, que envolve também a sensibilização e o compartilhamento de experiências enriquecedoras, cuja função é um questionamento maior para as causas do medo.
O que Lula coloca como fundamental em um processo terapêutico para o desbloqueio do medo é a questão do afeto, do tato, dos olhos nos olhos. Ele explica: "A minha abordagem é holística. Isto é, acredito que as partes se interdependem e se interrelacionam, formando um todo. Holismo seria uma visão global, não analisar cada detalhe por partes, como por exemplo: 'você sabe nadar, então vou te ensinar'. O que acontece é o seguinte: 'Você não sabe nadar porque tem medo da água, por que será? Você está bem afetivamente? Existe alguma razão concreta que te impeça de nadar ou entrar na água? Qual?'".
A água quente também é importante para o relaxamento e para completar esse processo de amizade com a água, pois ela funciona quase como um sedativo e como um eliminador de reações muito próximas ao medo, como o arrepio e contração muscular.
Lula considera que o estímulo seja basicamente igual tanto para o adulto quanto para a criança.
"A criança naturalmente ousa mais, é muito mais suscetível a adquirir um relacionamento mais rápido e afetivo. Gosta e acredita no professor como um amigo, uma pessoa em que ela pode confiar. Com o adulto a perda do medo é mais complexa, o racional está muito presente, por isso a maioria quer obter reforço de informações técnicas, como de que qualquer corpo flutua e o dele não poderia ser diferente."
Mas a terapêutica do medo não se resume à água. Em métodos como os de Lula, cerca de 2/3 do trabalho é realizado fora da água. O grupo se reúne e cada um conta suas experiências e ouve a dos outros, todos se sentem iguais, amparados pelo grupo. "Com o adulto se trabalha o lúdico, a parte intelectiva e a música, para harmonizar a emoção. Uma vez que a pessoas está frágil pelo seu desequilíbrio emocional, a gente procura fazer com que ela enfrente seus receios e tenha condições de supera-los para freqüentar um curso de natação comum e que também tenha uma referência vivenciada de sua capacidade de crescimento e auto-superação na difícil e necessária busca interior", finaliza Lula.
Durante a realização do workshop "Medo da Água", acompanhado pela Revista da Piscina para a realização desta matéria, o professor Lula Feijó fez uso da sabedoria chinesa para exemplificar a importância do envolvimento pessoal na solução das causas do medo, e achamos que este provérbio valeria a pena ser citado:
Ouço - me esqueço
Olho - me lembro
Faço - compreendo
Publicado na Revista da Piscina Nº 25.
Vencendo o medo d'água
A adaptação, "a entrega" e "a não cobrança"
Texto: Prof. Lula Feijó
Gravidade zero. É o que enfrentam os astronautas,que levam de 4 a 8 semanas para adaptarem-se parcialmente a ausência de gravidade. Náuseas e irritabilidade são as manifestações mais comuns até que o cérebro e os sentidos re-programem e se adaptem às novas condições gravitacionais.
O astronauta cresce de 2 a 4 cm pela distensão da coluna vertebral, os ossos enfraquecem e os músculos das pernas e das costas hipotrofia rapidamente. O ser humano domina a terra, desenvolve-se tecnologicamente, porque tem um fortíssimo poder de adaptação. Medo da água é desadaptação emocional, física e ambiental. Ter este medo excessivo é ter uma espécie de alegria emocional pela água, como se o medo fosse um sistema imunológico contra ameaças a integridade física e emocional e que estando hiperativo, superprotege a pessoa, inibindo adaptação e conseqüentemente o aprendizado.
A quase ausência de gravidade e outras alterações ambientais cobram uma delicada adaptação q é inibida pelo medo, exacerbado, quase uma "alegria emocional". O ato de entrega fica bloqueado.
O que o professor de natação pode fazer nestes casos? Em primeiro lugar deixar de ser professores ou autoridades no ensino da natação e passar a aprender juntamente com o aluno, não cobrando exercícios convencionais desta pessoa, não conduzindo a aula o tempo todo, enfim, não cercando a liberdade do experimentar, respeitando as limitações pacientemente. O professor agora um amigo deve ser um observador atento, deve estimular o lúdico, a exploração mais descomprometida da água. Ajudar a compreensão do "penso, logo hesito".
Estimular o sentir e a incorporação das sensações e emoções dizendo: "Como está sentindo seu quadril? Está a quantos centímetros da superfície? Seu medo é compatível com esta ameaça? Então pense menos, faça agora, este momento e este lugar estão a seu dispor está é a sua chance".
A "não cobrança", as aulas menos dirigidas são o compromisso com a reformulação com a revisão de valores, com a renovação. A adaptação é um convite ao novo e um desafio que estimula a vida.
A "entrega" é um ato de amor, de confiança. Confiando eu amplio meu universo. Ensinar quem te medo d'água é aprender com o aluno a importância de que todo gesto pode e deve ser um gesto de amor. A "não cobrança" é nosso exercício de liberdade, é um momento de reflexão, de deixar a prepotência de lado e olhar para a vida como uma criança curiosa. Muitos profissionais cobram conceitos, exercícios eficientes, uma pedagogia especializada no medo d'água, mas o principal é aprender junto.
Lula Feijó é professor de educação física e técnico em natação.
Publicado na Revista Nadar.
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